sexta-feira, 7 de março de 2014

Entrevista sobre meus customs na "Deuses e Monstros"

Entrevista na "DEUSES E MONSTROS" sobre meus action figures customs!!!
Enjoy it!!!


http://www.deusesemonstros.com/blog/?p=40


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No mundo do colecionismo de action figures de Gi-Joe´s (Conhecidos no Brasil como Comandos em Ação), é inevitável o contato com o trabalho de Ed França. Seu berço foram as artes plásticas, com pinturas que lhe renderam exposições em diversas galerias, todo esse talento aliado a uma paixão de infância o trouxeram ao mundo da  customização, onde são criados heróis e vilões personalizados conforme o desejo de seus clientes, que buscam personagens com uniformes que nunca foram lançados na coleção oficial, o trabalho é lento e repleto de detalhes que se justificam na qualidade de seu trabalho, e hoje seus trabalhos aparecem em coleções particulares nacionais e estrangeiras.
Identifique-se soldado. Nome, patente e unidade de serviço!
Saudações, meu nome é Ed França, nasci em Santo André/SP. Vivo e trabalho em BH há uns 20 anos ou mais. Sou graduado em artes visuais e arte educação pela UEMG, com especialização em Desenho e Pintura e pós-graduação em arte contemporânea.
Muitos cursos em áreas variadas de arte e tecnologia, Muitos seminários e viagens específicas para enriquecer meu conhecimento no universo artístico e subjetivo. Quem é artista profissional não para nunca de estudar e pesquisar. É uma constante e eterna busca. Seu olhar para o mundo fica tão diferenciado que você desassocia do comum, toda viagem, curso ou lugar que você estiver você estará pensando arte. É como uma maldição.
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Quando e como surgiu o seu interesse pela customização?
Sempre colecionei figuras de ação, desde criança, na época a gente chamava de “bonecos” ou “os carinhas”, como eu gostava de chamar em SP nos anos 80. Meus pais sempre foram muitos simples e nunca fui rico, mas, soldadinhos de plástico, forte apache, figuras de borracha da Marvel Comics, fizeram parte da minha infância. Inclusive os quadrinhos, que foram os grandes culpados disso tudo, até produzia na adolescência, desenhando e vendendo aos amigos na escola. Isso me levou à arte profissional décadas depois.
Mas o grande amor das coleções em minha vida foram os “comandos em ação” da Estrela. E o “revival” disso foi quando, já adulto, auxiliando numa mudança de casa que minha mãe faria, achei uma caixa de papelão com muitas figuras minhas e dos meus irmãos mais novos. Procurei na internet e acabei comprando alguns outros. Mas ficou nisso até final de 2010 quando resolvi customizar algumas figuras e o resultado foi tão positivo que muitos colecionadores da série “gi joes” dos círculos em redes sociais pediram encomendas. Aproveitei e criei outros diferenciados, esculpindo rostos novos, uniformes mais realistas, pois os da série são muito infantis e mal elaborados, já que eram para criança. Inclusive comecei a customizar as figuras baseadas no perfil visual e característica física do próprio colecionador que encomenda, fazendo uma versão dele lacrada, na cartela, com o desenho do cara como se fosse o boneco.
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Daí foi aumentando a procura até eu criar um blog pra divulgar, muitas comunidades e colecionadores não acreditavam que era eu quem fazia, achando que eram gringos. Criei tropas russas, nazistas, israelenses, homenagem ao exército brasileiro, tropas fictícias de escandinavos, outros inspirados no Afrika Corps do Gen. Rommel da WWII, mas trazidas para nossa tecnologia atual, enfermeiros e médicos americanos, astronautas russos e chineses.
Eu curto a escala 1:18, e é raro sairem figuras militares ou de ação dessa escala no Brasil e no mundo com qualidade elevada. Eu adoro os kits de montagem, tipo Revell, Tamya, Dragon,etc, mas é raro na escala dos gi joes.
O que influencia o seu trabalho, quais são as suas fontes?
As coisas que me influenciam na arte são mais próximas do real do que espelhados em vultos da arte tradicional ou do passado. A condição humana é o mote do meu trabalho, a relação do homem com o universo e seu embate com o que resta de vida, sempre caminhando pra morte. As figuras de ação e esses customs são outra coisa, não estão relacionados com meu trabalho na arte contemporânea.
Customizar e atender os colecionadores mais exigentes (que quase sempre já têm a coleção completa da Estrela), e tornou-me sociável. Tirou-me de uma misantropia e distância que me inclino sempre. Alivia do trabalho na arte e faz a alegria de um grupo de colecionadores sofisticados, que se empolgam por ter uma peça única, uma obra de arte em versão “gi. Joe”. Se eu não fosse artista eu ficaria muito feliz em comprar de um cara que faz algo mais interessante do que os lançados da série, como ninguém fazia isso com profissionalismo em um nível tão detalhado, fui lá e fiz.
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Como é o seu processo de criação, o passo a passo para se construir uma nova figura?
Sempre nas madrugadas, quando o silêncio se levanta e morre a barulheira urbana. Sempre alimentado por um som interessante, aquele café, enquanto seca uma peça aqui, preparo uma tinta ali, um livro aberto em certo capítulo. Eu sou múltiplo no fazer, é a melhor parte do meu dia. Faz-me esquecer da vida cotidiana e dessa realidade do mundo ocidental que considero falida  e sem retorno. As ideias fluem em qualquer lugar que vou, ando sempre com bloquinhos nos bolsos e cadernos para anotações, desde sempre.
Com quais materiais você trabalha para modelar e pintar?
As melhores tintas e vernizes do mundo para plastimodelismo, mas é um material muito caro, mas as peças ficam com um resultado belo e confiável, a durabilidade é bem maior também.
Suas peças são únicas, ou você produz cópias de cada uma?
Ainda não tiro cópias, mas estou perto disso. Geralmente são figuras únicas, aí modelo usando epox, mesmo. Eu faço tudo à mão, do começo ao fim do projeto. A ideia é realmente ter poucas repetições, são obras de arte, cara. Não é produção em grande escala, senão perde o brilho e a alma do que idealizei. É um sufoco conseguir as peças originais e remodelar algo em cima, uso a base dos corpos e figuras gi joes anos 80 e similares como esqueleto para fazer outra figura militar de ação completamente nova, com outra roupagem e uniforme detalhado.
A quanto tempo você está profissionalmente no mercado da Arte?
Quase 20 anos. Minha primeira exposição de pintura profissional foi em 1996.
Os seus clientes são todos brasileiros ou atende também ao mercado estrangeiro?
Geralmente são brasileiros. Os primeiros a comprar foram gringos. Canadenses e alemães, gente que tinha link direto comigo. O blog é recente e faço a venda diretamente com o cliente. Quero que o colecionador sério e de gosto apurado tenha esse prazer de ser um dos poucos que tenha um custom assim. Dá muito trabalho produzir essas peças, então, fazer barato pra ninguém dar valor no trabalho, nem pensar.
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Existe alguma diferença entre seus clientes nacionais e estrangeiros?
Não temos ainda a cultura dos norte-americanos e europeus acostumados com “action figures”, arte e colecionáveis. É um nicho pequeno no Brasil para os que produzem customs com qualidade. O brasileiro colecionador de “gi Joe” não compra obra de arte ligada à franquia com facilidade. Enfim, tenho percebido pelos clientes que andaram comprando que é para um público exigente, seleto e de nível elevado dentro da série específica. Às vezes aparecem pessoas que não são desse núcleo e querem comprar, e isso é muito legal.
O que vale mais: Técnica ou Imaginação?
Já vi por aí tantos customs bem feitos mas sem criatividade nenhuma, só reproduções do óbvio. Acho delirante ver customs diferenciados. Técnica qualquer um pode conseguir com o tempo. Mas ser realmente criativo e original, lamento, é para poucos e visionários.
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Qual é a maior dificuldade para artista brasileiro (que trabalha com figuras de ação) sobreviver de sua arte? Falta de talento ou de mercado?
Talento jorra por onde você for, o mercado de brinquedos no Brasil que é muito restrito, ainda está ligado ao lado infantil e lúdico das crianças. Ainda não pegou no Brasil o “colecionador adulto” que entra em lojas de brinquedos procurando algo específico sem ser taxado de bobão, crianção, etc..
O que poderia ser feito para mudar este quadro em relação à cultura das figuras de ação?
Já existe um papo entre os colecionadores mais sérios em tentar montar uma versão oficial de fã clube da série Gi Joe no Brasil. Se não tem um fã clube original e com número de membros exigidos contribuindo no país, sem chance. Nos anos 90 os desenhos animados alavancavam as vendas dos brinquedos, e os filmes recentes da franquia não seduziram as crianças no Brasil como antes. Hoje tem os consoles de games, internet, outras atrações, agora, de um panorama mais aberto, a cultura no Brasil é muito fraca nesse setor, acredito que deve melhorar com uma Comic.com e eventos ligados aos colecionáveis, HQ’s, filmes. Mas o governo tem que ajudar também facilitando nos encargos. É sintomático, tem a ver com nossa cultura, os impostos altíssimos, as dificuldades que lojistas têm para vender no Brasil essas séries. Nessa parte acho difícil acontecer, sou pessimista demais pela nefasta realidade política atual do Brasil.
Quais dos seus trabalhos você considera os mais importantes e porque?
Tenho um carinho especial pelos que criei que remetem ao exército brasileiro. Quando guri, sempre quis ver figuras das nossas forças armadas, não só dos americanos, mas não existiam.
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Me fale de seus artistas favoritos.
Eu vejo isso meio diluído, não separo o que é musica do que é imagem, do que é tátil. Gosto do Tunga, Ferreira Goulart, Iberê Camargo, Manoel de Barros. Dos gringos eu curto o Quorthon, Trent Reznor, H.P. Lovecrat, H.R. Giger, fase escura do Goya. Goethe e Nieztsche. Os versos do Bhagavad Gita, contidos no épico Mahabharata, Vedas. O épico de Gilgamesh e o Enuma Elish, são tão ricos em fantasia e imagem quanto ler Tolkien ou G.R. Martin. A garotada poderia tanto ter lido isso no ensino fundamental antes de acompanhar Senhor dos anéis ou Guerra dos tronos. Acho que não há um artista ou coisa específica, há um emaranhado de informação que está em cada expressão sensorial da Arte, seja ela imagem, tátil ou olfativa. A música influencia um pouco mais, somos criados em uma sociedade visual, imagética, com as vistas viciadas em tanta poluição visual. Sinto que a música facilita mais um insight ou um link com o todo.
Falando em música, o que você escuta no estúdio na hora de produzir seus customs?
O rock me arrebatou na adolescência, mas hoje eu escuto bandas mais atmosféricas, tipo o Rotting Christ, Ulver, Alcest, Katatonia, mas também gosto de coisas como o Massive Attack, The Cure, Bauhaus, The Mission.
Como é o seu contato com jogos e quadrinhos? Qual deles te atrai mais?
Tudo começou com os quadrinhos pra mim, a Marvel Comics, através dos formatinhos da Abril nos anos 80, quadrinhos que me abriram um mundo de fantasia que dimensionou todo meu trajeto posterior: Conan, Punho de Ferro, Eternos, Caveira Vermelha, Kull, o lado B da Marvel e DC Comics sempre foram meus preferidos.
Eu sempre achei o capitão América tão ridículo que, quando deram cabo dele eu nem acreditei que tivessem realmente feito isso, era uma propaganda de guerra tão imbecil que, até adolescente, sem ter noção dessa propaganda alienada tola, não via algo que me convencesse. Sentia pena era da desgraça da vida do Caveira Vermelha ou Motoqueiro Fantasma. O Batman também foi fundamental na infância, tudo de obscuro e mais denso, feito Etrigan, Mestre do Kung Fu, Kull, Thulsa Doom, etc, acabam me atraindo. Na tv era Spectreman e Ultraseven, adorava Pirata do Espaço e esperava ansioso pra ver o capítulo seguinte.
Depois os livros foram meus companheiros de sabedoria e silêncio. Nos anos 80 e 90 não existia o nerd, se você amava quadrinhos e esses lances que citei quando menino nos anos 80, você era um ser isolado, poucos colegas gostavam de quadrinhos e livros, não existia internet. Cara, nos anos 80, eu muito jovem já estava numas de ler sobre Suméria, Egito e Aliens antigos, questionar o que eram as carruagens de Fogo na bíblia judaico-cristã, e queria saber sobre Enoque. Como eu mudava de casa todo ano para uma cidade diferente por causa dos meus pais, me tornava um alien para os poucos amigos que eu fazia e perdia em seguida. Mas eu amava futebol e fazia campeonatos de futebol de botão com irmãos , primos e amigos. Eu desenhava os escudos de campeonatos mundiais, de cada seleção e a gente mesmo fazia a copa e a tabela. Construía fliperamas de madeira desenhando e acoplando luzinhas à pilha. A minha infância foi sem playstations e Xbox. Esse guris abobados de hoje, só ouvindo Restart e Justin Biber não sacam nada do que era legal.
Em que você está trabalhando atualmente?
Pinturas para uma exposição em grande escala, para o início de 2015, elaborando novos “customs gi joes” e montando uma oficina para esse tipo de trabalho.
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Quais são seus projetos para 2014 na área da escultura e modelagem?
Foco total na criação das minhas peças para figuras 1:18.
Que mensagem você gostaria de deixar aos nosso leitores?
Ajudem as pessoas, doem-se, cuidem com carinho das crianças, elas são a única razão de deixarmos para as futuras gerações nossa herança cultural e são o amor em estado vivo e bruto. Ofereçam um bom livro, mostrem a origem de um brinquedo, plantem árvores onde vocês moram e tenham plantas em casa, duvidem dos sistemas de governo e religiões. Adotem um bom amigo felino ou canino ao menos uma vez na vida. Amem intensamente as pessoas, elas são a extensão de cada um de vocês. O que vocês fizerem na vida só terá sentido se compartilhado com outras pessoas.
Ninguém morreria feliz sozinho numa ilha com uma TV de led de 60 polegadas com o último videogame lançado se não tiver amigos sorrindo ao seu lado para jogar, viajem de mochila com seus melhores amigos. Joguem RPG com seus amigos. E por fim, cuidem bem dos seus velhos pais, Depois que morrerem, não adiantará nada suas falsas lágrimas e arrependimento. Então façam o melhor e mais coração puro que puder.
E comprem um custom meu! *risos*
Que o universo abençoe os puros de coração!
Sem título


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